O combate ao HIV tem sido uma das maiores frentes da ciência médica nas últimas décadas. Desde a descoberta do vírus nos anos 1980, avanços importantes foram alcançados tanto no tratamento quanto na prevenção. E a mais recente inovação nesse campo é o lenacapavir, uma injeção semestral aprovada nos Estados Unidos que promete reduzir em quase 100% o risco de infecção por HIV.
Apesar de sua eficácia surpreendente, é comum que essa nova forma de profilaxia seja confundida com uma vacina. No entanto, é importante compreender a diferença entre esses dois mecanismos de prevenção, e o motivo pelo qual, mesmo com resultados promissores, ainda não existe uma vacina aprovada contra o HIV no mundo.
O que é o lenacapavir e como ele funciona?
Comercializado sob o nome Yeztugo pela farmacêutica Gilead Sciences, o lenacapavir foi aprovado pela FDA (agência reguladora de medicamentos dos EUA) como parte da estratégia de PrEP (profilaxia pré-exposição). Isso significa que é um medicamento usado por pessoas que ainda não têm o HIV, mas que desejam se proteger de uma possível infecção.
Diferente do método já usado no Brasil, que envolve o uso diário de comprimidos como o tenofovir/emtricitabina (disponível no SUS desde 2017), o lenacapavir é administrado por meio de uma injeção subcutânea apenas duas vezes ao ano. Essa facilidade na adesão representa um salto significativo em relação ao esquema tradicional, especialmente para populações que têm dificuldade em manter o uso contínuo dos comprimidos.
O mecanismo de ação do lenacapavir é simples e potente: ele bloqueia os “caminhos” que o HIV utiliza para se replicar no organismo. Assim, caso uma pessoa entre em contato com o vírus, o medicamento já estará presente no sangue, impedindo que a infecção se instale.
Mas se é uma injeção preventiva, por que não é uma vacina?
Essa é uma das dúvidas mais comuns. Afinal, se existe uma injeção que impede o HIV de infectar uma pessoa, por que ela não é considerada uma vacina?
A diferença está na forma como a proteção é oferecida ao corpo:
- A vacina estimula o sistema imunológico a produzir uma resposta ativa e duradoura. É feita a partir de fragmentos do vírus (ou de material genético inofensivo) para “ensinar” o organismo a combatê-lo. Mesmo que o vírus entre no corpo no futuro, o sistema já estará preparado com anticorpos e células de defesa prontas para reagir.
- A PrEP injetável, como o lenacapavir, não gera resposta imunológica. Ela age diretamente contra o vírus, mas de forma passiva. Ou seja, o medicamento precisa estar circulando no organismo de forma contínua. Caso as aplicações sejam interrompidas, a proteção desaparece.
Portanto, apesar da similaridade na forma de aplicação (injeção), o lenacapavir é um medicamento antiviral, e não uma vacina.
A importância desse avanço na luta contra o HIV
O HIV ainda é uma das principais questões de saúde pública no mundo. Segundo a UNAIDS, mais de 39 milhões de pessoas viviam com o vírus em 2023, e milhares de novas infecções continuam ocorrendo todos os anos.
Um dos maiores desafios no combate ao HIV sempre foi a adesão aos métodos preventivos — especialmente entre populações vulneráveis, como jovens, pessoas LGBTQIAP+, profissionais do sexo e usuários de drogas. O estigma, a desinformação e a dificuldade de manter tratamentos diários são obstáculos reais.
Com a nova injeção semestral, surge a possibilidade de ampliar o alcance da prevenção, reduzindo o risco de infecção entre aqueles que têm dificuldades com o uso diário de comprimidos ou que sequer se viam como parte da população que precisava da PrEP.
Além disso, em um cenário onde cepas resistentes a medicamentos e novas infecções ainda ocorrem, a inovação em formas de tratamento e prevenção é essencial.
E a vacina contra o HIV?
Apesar de décadas de pesquisas, ainda não existe uma vacina eficaz e aprovada contra o HIV. A complexidade do vírus, sua alta taxa de mutação e a capacidade de se esconder do sistema imunológico são fatores que dificultam o desenvolvimento de uma vacina tradicional.
Nos últimos anos, estudos com vacinas de RNA mensageiro (como as usadas contra a COVID-19) abriram novas possibilidades, mas ainda em fase experimental. Por enquanto, a PrEP oral e injetável continua sendo a melhor estratégia disponível para prevenir novas infecções, especialmente quando aliada a outras práticas de prevenção, como o uso de preservativos e o diagnóstico precoce.
O papel dos profissionais de saúde na conscientização
Médicos, enfermeiros e agentes de saúde desempenham um papel central na promoção da saúde sexual e na luta contra o HIV. Cabe a esses profissionais informar seus pacientes sobre os métodos disponíveis, esclarecer dúvidas e combater o estigma que ainda cerca o HIV.
Incluir a PrEP (oral ou injetável) nas conversas de rotina é fundamental para alcançar quem mais precisa, especialmente em comunidades que vivem sob risco elevado, mas que nem sempre se sentem acolhidas pelos sistemas de saúde.
A injeção semestral pode não ser uma vacina — mas é, sem dúvida, um dos maiores avanços da medicina preventiva dos últimos anos.

