O crescimento acelerado das apostas online no Brasil trouxe um impacto que vai além da economia e do entretenimento. Endividamento, ansiedade, depressão, isolamento social e perda de controle do comportamento têm aparecido com cada vez mais frequência nos atendimentos em saúde mental.
Diante desse cenário, o Sistema Único de Saúde (SUS) anunciou uma nova estratégia de cuidado: a implementação de teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. A iniciativa está prevista para começar em 2026 e representa um avanço importante no reconhecimento da dependência em jogos como uma condição de saúde que exige abordagem estruturada.
Inicialmente, o programa deve oferecer cerca de 450 consultas online por mês, com possibilidade de ampliação conforme a demanda. O atendimento será voltado a pessoas que perderam o controle sobre apostas, acumulam dívidas relacionadas ao jogo, apresentam sofrimento emocional significativo ou já não conseguem interromper o comportamento sozinhas.
O cuidado, no entanto, não se limita ao ambiente virtual. Quando identificado risco maior ou necessidade de acompanhamento contínuo, os pacientes poderão ser encaminhados para atendimento presencial na rede SUS, como Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). A proposta é integrar o teleatendimento a uma linha de cuidado organizada, evitando abordagens isoladas ou fragmentadas.
Outra frente anunciada pelo governo é a criação de uma ferramenta de autoexclusão. Por meio dela, a própria pessoa poderá solicitar o bloqueio do CPF em sites de apostas autorizados, além de deixar de receber publicidade dessas plataformas. A medida busca reduzir o estímulo contínuo ao comportamento aditivo, especialmente em fases de maior vulnerabilidade emocional.
Somado a isso, será criado o Observatório Saúde Brasil e Apostas Eletrônicas, que utilizará dados para monitorar o impacto das apostas na saúde da população, orientar políticas públicas e aprimorar estratégias de prevenção e tratamento.
Do ponto de vista médico, a iniciativa reforça um ponto essencial: dependência em jogos não é falha moral, falta de força de vontade ou problema exclusivamente financeiro. Trata-se de um transtorno do comportamento, com bases neurobiológicas, emocionais e sociais, que exige escuta qualificada, acompanhamento longitudinal e integração entre níveis de cuidado.
A ampliação do teleatendimento também reduz barreiras importantes, como estigma, dificuldade de acesso físico aos serviços e demora para o primeiro acolhimento — fatores que frequentemente atrasam o início do tratamento.
Ao reconhecer oficialmente esse tipo de dependência como uma demanda de saúde pública, o SUS dá um passo relevante para responder a um problema contemporâneo, silencioso e em rápida expansão. Para médicos e profissionais da saúde, a medida amplia a rede de apoio e reforça a importância de identificar sinais precoces, orientar pacientes e encaminhar de forma adequada dentro da rede.
Cuidar da saúde mental também passa por entender os novos riscos do nosso tempo. E estar preparado para acolher, orientar e tratar faz parte desse compromisso.

